Na pandemia, a morte do contraditório no Brasil.

(*) Por Dr. Luiz Ovando

“Uma das primeiras coisas que os estudantes de jornalismo aprendem na faculdade é a importância de ser justo. Os repórteres sempre devem incluir o outro lado, um princípio de prática que ouvirão inúmeras vezes antes de entrar em campo”. Esse trecho faz parte do livro “Os elementos do Jornalismo”, dos americanos Bill Kovach e Tom Rosenstiel.

Em um primeiro momento, pode causar estranheza expor situação tão evidente em pleno anos 20, do século XXI, quando bilhões de cidadãos estão conectados a um mundo de notícias 24 horas. Abordagem insofismável, que é o fato de a mídia ignorar regra padrão do jornalismo e do Direto, de ouvir o “outro lado”, algo “tão velho”, diria o mais jovem e recém-formado jornalista.

A pandemia do novo coronavírus obriga-nos a fazer essas reflexões. O contraditório resgata o princípio da igualdade e destaca a importância da democracia. É o direito que as partes têm de se manifestar. Qualquer conclusão implica debate prévio.

Segundo Kovack e Rosenstiel, os jornalistas devem ser tão transparentes quanto possível sobre as fontes e métodos para que o público possa fazer sua própria avaliação das informações. Mesmo em um mundo de vozes em expansão, “acertar” é a base sobre a qual tudo o mais é construído — contexto, interpretação, comentário, crítica, análise e debate. A verdade maior, ao longo do tempo, emerge desse fórum.

Afirmei, recentemente, que o presidente Jair Bolsonaro está sob a mira do impeachment desde a sua posse, em janeiro de 2019. Pressão feita pelas forças da contravenção, contrariadas pela postura austera e segura do presidente, de não abaixar as calças a quem quer que seja. E o que é pior: essas “forças” têm tido apoio dos meios de comunicação, os quais não se ruborizam por contrariar o direito ao contraditório, colocando em risco — aí sim — a democracia.

Acusam o presidente à luz das tendências ideológicas individuais, sem dar a ele oportunidade de contra-argumentar. Impedem o debate e acusam-no de ditador, misógino e tantos outros adjetivos infundados.

Atribuem-no a responsabilidade pela pandemia, deixando de olhar para as estatísticas regionais dos paladinos defensores da vida, cujos Estados são os piores em mortalidade, assim como ignoram países que adotaram repressão ao descumprimento de medidas restritivas, sem qualquer base científica. Restrições, aliás, que resultaram em verdadeira hecatombe, como ocorreu na Inglaterra, Espanha, França, Bélgica e Estados Unidos.

São os cientistas da tese única. Não há a antitese. Não aceitam a hipótese de que, em meio a um debate, possam surgir posições contrárias as que parte da mídia tem pregado diária e exaustivamente. Deliram na busca de fatos alucinógenos que incitam a histeria midiática coletiva, estimulando o medo e a desesperança, priorizando-se a tanatologia. Ou seja, a morte.

Evocam a ciência como se eles fossem os detentores divinos do conhecimento sobre um vírus que surgiu há pouco mais de ano. Calam as vozes dissonantes. Sufocam o “outro lado”. Na pandemia, o contraditório morreu.

Todos os dias, nos mesmos horários, nos mesmos canais, as mesmas fontes, os mesmos rostos, os mesmos argumentos. A população não tem o direito de se informar de forma isenta, de fazer reflexão, de entender a doença. É como xarope de gosto ruim que a mãe ou o pai obriga o filho a tomar, empurrando, como se diz, “goela abaixo”.

Insistem que o único tratamento para a Covid-19 é, se todas as medidas preventivas não funcionarem, esperar a lesão pulmonar e seus sintomas funestos. Logo, ocorrem milhares de mortes, cuja culpa atribui-se ao presidente porque ele – dizem — não usa máscara.

Essa mesma ciência mostra que há vacinas com 50% e 70% de eficácia. E negam as publicações científicas — muito bem fundamentadas – de que a Hidroxicloroquina e Azitromicina resolvem o problema com cura em 98,7% dos pacientes, quando administrados na fase inicial da doença.

Que ciência tendenciosa é essa que não quer ver o outro lado? Por que só abrir espaço aos que dizem a mesma coisa, como “fique em casa”, “não se aglomere”, “use álcool em gel”, “se tiver falta de ar, vá para o hospital”?          

Por que sonegar o direito de a população ter acesso a outras fontes de informações médicas e estudos científicos sobre a doença?

A pressão econômica subjugou a política. A política é a ciência que prioriza os interesses da população e seu bem-estar. Quando o poder do dinheiro se sobrepõe ao poder da política e a subjuga, vale qualquer estratégia, até a subtração do contraditório e dos direitos.

A mídia, dizem os autores de “Os Elementos do Jornalismo”, deve lealdade absoluta ao cidadão. É a ele que esses meios devem servir, colocando o interesse público e a verdade acima dos seus próprios interesses ou suposições.

É preciso que os cidadãos de bem — sejam eles de qualquer área, camada social ou profissional — se levantem para defender o direito inalienável à informação livre e transparente, desapegada de qualquer outro interesse.

(*) É médico há 45 anos (clínico, cardiologista, intensivista e geriatra) e deputado federal por Mato Grosso do Sul